Neymar, Paris Saint-Germain e Barcelona - OChute }

Neymar, Paris Saint-Germain e Barcelona

por  Isabel Fuchs em Opinião
  • Reduzir a transação do brasileiro para o PSG como uma falha de caráter é ignorar a realidade mais ampla do futebol. O atacante é apenas um sintoma, não a causa dos problemas do esporte

    Destaque Neymar, Paris Saint-Germain e Barcelona C. Gavelle/PSG
    Gostou: avalie
    (1 Voto)
    Publicidade

    A ida do Neymar para o PSG gerou diversas críticas mundo afora, torcedores do Barcelona queimando camisas do jogador, taxado agora de mercenário por deixar o que muitos consideram ser o melhor time do mundo.

    Agora o jogador mais caro da história do futebol, as razões para que Neymar decidisse por deixar o Barça não foram abertamente ditas pelo jogador. Em uma entrevista, já com a camisa do PSG, Neymar chegou a criticar a diretoria do clube catalão, assim como já fez também Dani Alves.

    Curioso pensar que a ida do Neymar para o Barça não causou repúdio da mesma proporção que o que se verifica agora com a ida para o PSG. O caminho para o Barça, deixando o Santos para trás, era visto como óbvio, como um percurso que Neymar deveria percorrer, para que alavancasse sua carreira e desenvolvesse seu futebol.

    O fato hoje de Neymar ser o jogador mais caro da história não tem necessariamente uma relação com as exigências do jogador, senão pela própria imposição do contrato que havia sido firmado entre o atleta e o Barça.

    É reducionista pensar que Neymar pensou somente sob a perspectiva financeira ao decidir deixar o Barcelona, se assim fosse poderia ter ido para qualquer outro clube de algum magnata, que poderia pagar o mesmo que o jogador recebe hoje no PSG. Novos desafios se apresentam ao jogador agora no PSG, que apesar de contar com um elenco de muita qualidade, não é o mesmo que o Barça, exigindo ainda que o atleta cumpra um papel de protagonista, sendo mais exigido que no Barcelona.

    É curioso pensar também que a ideia de jogador mercenário é mais presente nas transações de atletas brasileiros, diferente da relação que se sobrepõe nas transferências de jogadores europeus.

    Além disso, não acredito que seja condenável pensar que um atleta coloque na balança de suas escolhas profissionais a questão financeira. Diversos outros profissionais de outras áreas balizam suas decisões a partir de vantagem financeira, os futebolista são também profissionais e tem o direito de pensar nisso.

    A questão é que as cifras são tão altas que é difícil pensar que havia algum tipo de desvantagem financeira para o Neymar jogando no Barça. Seja como for, a transferência do atleta expõe a gigante transformação pela qual passou o futebol, que acaba por ser protagonista de grandes transações, demonstrando que a relação entre atletas e clubes não é a mesma de 40 anos atrás.

    Porém, é um equívoco pensar que a responsabilidade disso recai sobre os atletas, a transformação do futebol num negócio altamente lucrativo não é resultado do desejo dos atletas, senão um reflexo econômico que expõe os interesses de grandes empresas, que buscam lucrar acima de tudo. Encontraram no futebol um produto altamente e rentável e assim transformaram o jogo.

    De qualquer maneira, a ida de Neymar para o PSG representa novos desafios ao atleta, que agora tem a oportunidade de disputar um campeonato diferente do espanhol, jogando ainda a Champions League com uma camisa um tanto menos favorita que a do Barça.

    É claro que não é possível também não citar que, agora longe de Messi, Neymar pode assumir um papel de maior responsabilidade no PSG, que pode favorecer o atleta na decisão da Bola de Ouro. Neymar também deseja ser o melhor do mundo e tem futebol para entrar com força nessa disputa.

    Reduzir a transação de Neymar para o PSG como uma falha de caráter do atleta é ignorar a realidade mais ampla do futebol. Neymar é apenas um sintoma, não a causa dos problemas do esporte.

    Individualizar a questão é a saída mais fácil e também a mais equivocada. Os interesses na transferência são múltiplos, e se engana aqueles que acreditam que apenas o jogador leva vantagem com o negócio. O PSG e seus donos irão lucrar bastante com Neymar vestindo a camisa da equipe.

    Nessa complexa trama de diferentes interesses financeiros, que se conciliam da maneira que for possível, quem mais sai perdendo são os torcedores, que não detém vantagens financeiras e sentem que são traídos, porque hoje o fator determinante do futebol não é o esporte, mas o espetáculo e suas possibilidades de lucro.

    Que Neymar continue jogando um futebol espetacular no PSG e que a transferência seja compreendida em sua totalidade, não como um problema de Neymar, mas um sintoma do futebol atual e seus novos interesses.

    Relacionadas