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Quinze mil na Vila Belmiro

por  Isabel Fuchs em Opinião
  • A primeira partida da final do Campeonato Brasileiro Feminino, entre Santos e Corinthians, conseguiu um ótimo público, na Vila Belmiro, e mostra que a modalidade tem condições de conquistar a torcida

    Destaque Quinze mil na Vila Belmiro Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC
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    Na última semana, no dia 13 de julho, aconteceu a primeira partida da final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. O Santos enfrentou em casa o time do Corinthians e venceu por 2 a 0. A exemplo do que já havia ocorrido na partida da semifinal, em Iranduba, a torcida dos dois clubes garantiu um público de mais de 15.000 pessoas.

    Jogos com as arquibancadas cheias são uma exceção no futebol feminino, normalmente o comparecimento da torcida é muito baixo, principalmente nas competições estaduais. No Campeonato Brasileiro o grande expoente das arquibancadas cheias é o Iranduba, o time conseguiu alcançar a incrível marca de 7.747 espectadores em média por partida. Esses números são inéditos no futebol feminino e na semifinal o Iranduba alcançou o recorde de público, atraindo 25.371 torcedores ao estádio.

    Longe do circuito mais badalado do futebol feminino, o Iranduba parece romper barreiras regionais bastante importantes no cenário do futebol, garantindo uma vaga na semifinal da competição e alcançando a marca que nenhum dos grandes times do estado de São Paulo conseguiu alcançar. Apesar de a competição contar com times de tradição do futebol masculino, como é o caso do Corinthians, da Ponte Preta e do Flamengo, por exemplo, não são estes que conseguiram angariar público aos estádios.

    Somente o Santos, o time que conta com uma história mais estável de investimento na modalidade, apesar de um pequeno hiato, quando o time foi extinto, começa a colher frutos dos anos de investimento no futebol feminino. Além dos títulos conquistados ao longo dos últimos anos, a torcida santista está fazendo sua parte e comparecendo aos jogos.

    É preciso pensar o significado da presença da torcida nos estádios, porque a solução não é simples, não basta conceder aos times de tradição do futebol masculino uma vaga na competição nacional feminina. Esta medida não basta para conquistar torcida e prestígio, é preciso entender que o centro do desenvolvimento do futebol feminino pode estar desconectado dos grandes clubes do futebol masculino.

    De qualquer modo, é preciso comemorar que a torcida está comparecendo aos jogos, mesmo que ainda com imensas desigualdades. O exemplo do Iranduba deve ser utilizado pelos gestores do futebol feminino no país, para tentar desvendar os processos que fazem com que a torcida se conecte com o futebol feminino. A resposta que vem do caso santista está mais desenhada, é possível compreender que o apoio da torcida vem de anos de investimento e apoio à modalidade, com uma tentativa incansável por parte das atletas, da comissão técnica e, em alguns momentos, também da diretoria em fazer com que o futebol feminino conquiste torcida.

    No universo moderno do futebol, os clubes só conseguem se desenvolver quando conquistam espaço no mercado e, para que isso aconteça, é preciso conquistar torcida. Caso contrário, infelizmente, os clubes continuarão a receber investimentos reduzidos, fruto de apoios de secretarias municipais de esportes e alguns pequenos patrocínios, menos preocupados com retorno financeiro. Mas sabemos que o retorno financeiro é um elemento importante para angariar investimentos mais polpudos, só que para que isso ocorra é preciso que o futebol feminino encontre um mercado próprio.

    Essa lógica mercadológica, que impera no futebol, é bastante cruel especialmente com o futebol feminino. Isso se dá por conta das enormes dificuldades que passam as mulheres para conquistar espaço na modalidade dos homens, o machismo é um grande entrave para o desenvolvimento do esporte, por isso não basta que sejam tomadas pequenas medidas, pontuais e específicas, visando acabar com os problemas que atuam somente na superfície do problema.

    O buraco é bem mais embaixo, por isso o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil passa por compreender o complexo cenário da sociedade do país. Enquanto os gestores não conseguirem entender essas especificidades, viveremos com medidas paliativas, que podem resolver apenas momentaneamente alguns dos problemas da modalidade.

    Todavia, podemos e devemos comemorar os pequenos passos que a modalidade dá no país, como a lotação do estádio na partida entre Iranduba e Santos, pela semifinal, e a presença de mais de 15.000 torcedores na primeira partida da final, entre Santos e Corinthians. O futebol feminino avança.

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