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Futebol para quem?

por   em Editorial
  • Fala de Alexandre Kalil, ex-presidente do Alético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, escancara noção equivocada de que esporte mais popular do mundo não deve nada aos seus fãs

    Destaque Jogadores disputam Fla-Flu diante de arquibancada vazia no Maracanã Divulgação / Fluminense Jogadores disputam Fla-Flu diante de arquibancada vazia no Maracanã
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    "Futebol não é coisa para pobre", afirmou taxativamente o ex-presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, em entrevista citando os altos preços dos ingressos entre os clubes brasileiros. O ex-dirigente, que hoje é prefeito de Belo Horizonte, vetou projeto de lei que previa a venda de 30% da carga total de bilhetes a preços populares nos estádios da capital mineira.

    "No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil. O Atlético coloca ingresso a 20 reais e não lota o estádio. Futebol não é público, não é forma de ajuda social", assegurou Kalil, que presidia o Galo quando, na final da Libertadores de 2013, contra o Olimpia, do Paraguai, o clube registrou a maior renda de uma partida de futebol realizada no Brasil. A decisão no Mineirão, que terminou em vitória atleticana nos pênaltis, contou com a presença de 58.620 torcedores e arrecadação de mais de 14 milhões de reais.

    A "Ilha do Urubu", estádio da Portuguesa-RJ que vem sendo utilizado pelo Flamengo, já tem sua pequena trajetória com o clube da Gávea marcada por preços de ingresso exorbitantes. Na partida contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, o valor mínimo para o público em geral foi de R$ 200. Rubro-negros reclamaram em redes sociais e no próprio local, o que já faz a diretoria da equipe carioca rever os valores para a sequência na temporada.

    Dirigentes costumam justificar os valores citando os custos de se manter um clube de ponta, com as constantes contratações, salários de atletas e comissão técnica e aluguel de estádio, entre outras despesas. No entanto, a falta de planejamento e continuidade de uma filosofia de jogo, por exemplo, são fatores que influenciam de maneira mais crucial no desperdício visto em equipes do Brasil e do exterior. Diretorias repetem os mesmo erros como em um ciclo vicioso que culmina em multas por quebra de contrato e gastos em excesso com profissionais medianos.

    Obviamente, o acúmulo de dívidas acarretado pelas más gestões acaba estourando no elo mais fraco da corrente, o torcedor. Movido por sua paixão, ou o adepto aceita tudo o que lhe é exigido em nome de um apoio incondicional à camisa ou é excluído do cenário.

    O que pessoas como Alexandre Kalil fazem questão de não se lembrar é da história do próprio esporte, que, apesar de em suas origens ser tido como atividade das elites, teve verdadeiro crescimento a partir da massificação, tanto da prática quanto do consumo.

    Mais ainda, deixam de lembrar que as cotas de TV, que ainda são a maior fonte de receita dos principais clubes de futebol do país, existem e são tão valiosas apenas por conta das milhões de pessoas que ainda ligam suas televisões para acompanhar o time do coração. Algumas das quais certamente encontram-se excluídas do dia a dia dos clubes pela "barreira social" imposta nos últimos anos.

    Além disso, para ter sucesso no campo esportivo, não basta a qualquer clube gastar rios de dinheiro. Diversos exemplos, recentes ou mais antigos, provam que mais significativo do que contratar nomes de peso com salários astronômicos é ter organização, tanto dentro quanto fora de campo. Nesse cenário, torna-se ainda mais absurda a afirmação de Kalil e de tantos outros que acompanham seu pensamento.

    O mesmo Kalil, por exemplo, colocou ingressos a 5 reais para atrair a torcida atleticana em 2008, quando o Galo ia mal das pernas no Brasileirão. Ou seja, quando o clube precisa da torcida se torna legítimo, no discurso do ex-dirigente, um "pedido de ajuda".

    Iniciativas como as dos programas de sócio-torcedor são opções válidas, mas não devem ser obrigatórias, muito menos excludentes. Em estádios como a Arena Corinthians, por exemplo, depara-se jogo após jogo com imensos e incontáveis setores "VIP" vazios, enquanto uma camada considerável da torcida acaba impedida de comparecer aos locais por conta de preços proibitivos. Uma total inversão da lógica.

    Enquanto fãs de futebol, esperamos que o esporte continue crescendo e que cada vez mais pessoas possam ter acesso a seu mundo. Mesmo deixado para escanteio, o torcedor ainda segue alimentando a paixão que mantém viva toda uma indúestria. Não se sabe até quando. Sem o apoio de quem o tornou gigante, tudo que se pode esperar do jogo é uma morte lenta e melancólica.

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