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A CBF e a despolitização do futebol brasileiro

por   em Editorial

Com a proibição de manifestações no jogo da Seleção, a entidade mostra sua faceta censuradora em um palco de transformação social

Destaque A CBF e a despolitização do futebol brasileiro Reprodução/Mídia Ninja
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Na terça-feira (6), a Seleção Brasileira enfrentou a Colômbia na Arena da Amazônia, pela oitava rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. O resultado da partida foi 2 a 1 para o time canarinho, mas o que me chamou a atenção não foi o placar. Aliás, na minha maneira de enxergar, a notícia mais importante sobre o confronto foi publicada antes mesmo de a bola rolar.

Assim, como o Comitê Olímpico Internacional, a Fifa também proíbe manifestações políticas em jogos oficiais. No entanto, uma decisão judicial liberou a liberdade de expressão nas arenas esportivas da Rio-2016. O jogo da Seleção Brasileira, por sua vez, não pôde contar com os protestos dos torcedores de Manaus.

A CBF orientou os seguranças da partida a confiscarem os materiais de cunho político que fossem levados às arquibancadas por espectadores. Postura que se relaciona ao momento político do país.

Elemento do espectro que compõe a sociedade do país, o futebol, como não poderia deixar de ser, sofre com os mesmos problemas encontrados em outras áreas. A CBF utiliza ações similares as do governo de Michel Temer para manter nomes como Marco Polo Del Nero no comando.

Apadrinhado por José Maria Marin e Ricardo Teixeira, o atual presidente da CBF não deixa o país há mais de um ano por medo de ser preso. Ele foi indiciado pela Justiça dos Estados Unidos por corrupção e lavagem de dinheiro, no caso conhecido como Fifagate.

Neste contexto, o que seria melhor para Del Nero? O silêncio.

A proibição de manifestações políticas em jogos oficiais é uma determinação que vem da Fifa. No entanto, episódios recentes mostram o apreço dos cartolas brasileiros pela censura.

Durante a partida entre Corinthians e Capivariano, pelo Campeonato Paulista deste ano, no dia 11 de fevereiro, a torcida do Timão estendeu três faixas com mensagens de protesto. Elas diziam: “Jogo às 22h também merece punição”; “Rede Globo, o Corinthians não é seu quintal”; e “Cadê as contas do estádio?”.

Logo, a polícia militar interviu de maneira truculenta e retirou as faixas, mesmo elas não violando o Art. 13-A, inciso IV, do Estatuto de Defesa do Torcedor, que diz ser proibido “portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo”.

Na partida seguinte, em 14 de fevereiro, mais faixas apareceram: “Quem vai punir o ladrão de merenda?”; “Futebol refém da Rede Globo”; “Ingresso mais barato”; “CBF, FPF vergonha do futebol”.

O protesto fazia referência ao deputado Fernando Capez, acusado de participar de um esquema de pagamento de propinas em contratos superfaturados da merenda escolar no estado de São Paulo, à rede Globo, CBF e FPF, instituições que comandam o futebol brasileiro. Além dos escândalos envolvendo dirigentes das entidades, os corintianos também questionavam o controle exercido pela emissora carioca no futebol brasileiro.

Ao ver as faixas, o árbitro Luiz Flávio de Oliveira parou o jogo e imediatamente pediu ao capitão do Corinthians, o zagueiro Felipe, para que solicitasse a sua torcida para retirar as faixas de protesto.

O caso em questão mostra o quanto o estádio de futebol tem sido alvo de censura por parte dos poderes políticos e econômicos estabelecidos. Uma pena, uma vez que já foi visto como espaço democrático da sociedade brasileira, onde os envolvidos podiam expressar seus questionamentos, trabalhando como agentes modificadores do status quo.

Pano de fundo para a discussão de assuntos extremamente pertinentes para a sociedade, o futebol precisa estimular manifestações de cunho político. Algo como a Democracia Corintiana de Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, que em tempos de ditadura militar pregava o processo igualitário na tomada de decisões do clube alvinegro.

Até protestos mais sutis, como o punho em riste do atacante Reinaldo, maior artilheiro da história do Atlético-MG, simbolizando a revolução. “Levantar o punho era um gesto revolucionário. Eu usava o futebol como tribuna, e sabia que os militares não podiam me agredir fisicamente, porque seria com dar um tiro no pé”, disse o ídolo do Galo, que não foi convocado para a Copa do Mundo de 1982 por conta de sua postura política.

Visto como um agente para a ascensão social, o futebol precisa ser utilizado como palco destinado à disseminação de ideias e ideais. Afinal, o futebol não é só um jogo e a liberdade de expressão é um direito previsto na constituição.

Alterado: Quinta, 08 Setembro 2016 11:32

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